Transferir um enxame de abelha jataí (Tetragonisca angustula) é uma das tarefas mais importantes (e mais delicadas) na meliponicultura. Feita do jeito certo, a colônia se adapta rápido, cresce e vira uma “caixa forte”. Feita no improviso, dá ruim: perda de rainha, abandono, ataque de formigas, mofo, deriva (abelhas indo para outra colmeia) e até colapso do ninho.
Neste guia, você vai aprender passo a passo, com checklist, tabela de decisões e um roteiro prático para transferir jataí da isca (garrafa, tronco-isca, caixa-isca) para uma caixa racional (ex.: modelo INPA/modular), com o máximo de segurança e o mínimo de estresse para as abelhas.
Observação importante: além da técnica, existe a parte legal de criação/transporte de abelhas sem ferrão. As regras podem variar por estado e órgão ambiental, e há normas sobre transporte dentro da área de ocorrência natural e autorizações.

O básico antes de começar (o que você precisa entender)
1) Jataí tem uma “arquitetura” de ninho bem característica
Ela costuma nidificar em ocos, faz entrada com tubinho (batume/cera/resinas) e organiza o interior com discos de cria e potes de mel e pólen. Essa estrutura precisa ser respeitada durante a transferência para não desorganizar o “coração” da colônia.
2) Transferência é diferente de “captura”
- Captura: você atrai o enxame para uma isca e espera ele se instalar.
- Transferência: você pega uma colônia já instalada (na isca) e muda para uma caixa definitiva.
3) O maior risco é perder a rainha (ou danificar cria)
Na jataí, a rainha e o ninho de cria são o centro do funcionamento. Se a cria esfriar, quebrar demais, ou se a rainha ficar para trás, a colônia pode definhar.
Quando é o melhor momento para transferir a jataí?
Melhor época do ano
Em geral, prefira períodos de:
- temperaturas mais estáveis
- boa florada
- menos frio e menos chuva contínua
Isso aumenta entrada de alimento e reduz estresse. (Em dias muito frios/úmidos, a cria sofre com facilidade.)
Melhor horário do dia
- Manhã (depois do “movimento inicial”) ou fim da tarde, dependendo do clima local.
O ideal é evitar: - sol forte no meio-dia
- vento frio
- chuva
Sinais de que a colônia está pronta para transferência
Procure:
- fluxo constante de abelhas na entrada
- presença de potes de mel e pólen
- cria visível (discos/área de cria)
- cheiro “bom” (resinoso). Cheiro azedo pode indicar fermentação/mofo.
Materiais e ferramentas (sem improviso)
Caixa recomendada
- Caixa racional/modular (ex.: INPA ou modular com sobreninho/melgueira), porque facilita manejo, divisão e colheita.
Itens essenciais
- fita crepe larga / fita adesiva (para vedar frestas temporariamente)
- espátula fina (ou faca sem serra) para soltar estruturas com cuidado
- seringa ou conta-gotas (para alimentação emergencial)
- potinho com xarope (se necessário) e/ou alimento proteico adequado (quando indicado)
- pincel macio (opcional) para “varrer” abelhas sem machucar
- luvas finas (opcional) — jataí não ferroa, mas ajuda no manuseio e higiene
- borrifador com água (bem de leve, se precisar acalmar)
- suporte/mesa para trabalhar
- graxa/óleo/cola entomológica ou barreiras físicas para formigas
- telas/grade anti-formiga no suporte
- material de vedação: barro/cerume/fitas (ajustes finos)
Sobre alimentação: há recomendações técnicas para alimento energético e proteico em manejo de abelhas sem ferrão; use com critério, sem exageros, para não criar mofo/fermentação.
Checklist rápido (para imprimir/seguir na hora)
✅ Caixa nova pronta, limpa, seca e sem cheiro forte de tinta/solvente
✅ Local definitivo preparado (sombra, protegido de vento/chuva)
✅ Suporte com barreira anti-formigas pronto
✅ Ferramentas separadas e higienizadas
✅ Transferência planejada para dia seco e com temperatura agradável
✅ Plano de vedação/fechamento temporário da entrada
✅ Potes/cera/resíduos que serão reaproveitados definidos
✅ Tempo disponível: você não pode fazer “na pressa”
Métodos de transferência mais usados (qual escolher?)
A jataí costuma ser transferida principalmente em dois cenários:
Cenário A: a colônia está numa caixa-isca (mais fácil)
Você abre a isca, encontra a região de cria e realoca com mais controle.
Cenário B: a colônia está numa garrafa/tronco-isca (mais chato)
Você precisa cortar/abrir com cuidado para não esmagar cria e não derramar mel.
Abaixo, uma tabela bem prática para decidir:
| Situação do enxame | Melhor abordagem | Por quê |
|---|---|---|
| Caixa-isca bem montada e acessível | Transferência direta para caixa racional | Menos quebra, mais controle |
| Garrafa PET / recipiente estreito | Abertura cuidadosa + realocação por etapas | Risco de “lambança” com mel e esmagamento |
| Colônia muito fraca (pouca cria) | Transferência mínima + reforço de proteção/alimento | Fracas colapsam fácil |
| Muito mel dentro da isca | Manejo mais lento e limpo | Mel derramado atrai formigas e causa estresse |
*(Esse ponto do “muito mel atrapalhar” aparece com frequência em manejos práticos de transferência.)
Passo a passo: como transferir jataí da isca para a caixa racional

1) Prepare o local e a caixa definitiva
- Coloque a caixa no local final (ou bem próximo), nivelada.
- Garanta sombra e proteção.
- Ative a proteção anti-formigas antes de abrir qualquer coisa (isso é MUITO subestimado).
Dica prática: se a caixa vai ficar no mesmo lugar da isca, melhor ainda (reduz perda de campeiras).
2) Reduza estresse e organize a “logística” das campeiras
As campeiras (forrageadoras) são as que saem para buscar alimento. Se você muda a caixa de lugar “do nada”, elas voltam para o ponto antigo e se perdem.
Estratégias comuns:
- Manter a nova caixa no lugar exato da isca e deslocar a isca vazia depois.
- Se precisar mudar de local, faça mudança gradual ou use obstáculos visuais na entrada para “forçar” reorientação (técnica simples: um raminho/folhas perto da entrada por 1–2 dias).
3) Abra a isca com calma (sem sacudir)
Abra devagar. Jataí é pequena, qualquer pancada desorganiza o ninho.
Procure primeiro:
- área de cria (discos)
- potes de pólen (geralmente mais escuros/pastosos)
- potes de mel (mais líquidos)
Jataí costuma ter entrada típica e nidificação em ocos; isso ajuda a reconhecer como a estrutura aparece.
4) Prioridade máxima: transferir a área de cria “inteira” (ou o mais inteira possível)
A cria é o “miolo”. O ideal é:
- remover o bloco/discos de cria com suporte (espátula/faca lisa)
- evitar virar de ponta-cabeça
- evitar expor ao vento/frio por muito tempo
Como posicionar dentro da caixa
- Coloque a cria na área do ninho (corpo principal), de forma estável.
- Se sua caixa é modular, a cria vai no módulo de ninho (não na melgueira).
Regra de ouro: menos é mais. Quanto menos você “remexer”, melhor.
5) Transfira potes com critério (pólen é mais importante do que mel)
- Pólen é proteína: importante para criar novas abelhas.
- Mel é energia: importante, mas se derramar vira um imã de formiga e sujeira.
Recomendação prática:
- transfira potes de pólen intactos sempre que possível
- transfira alguns potes de mel inteiros (sem derramar) e limpe excessos
Se derramou mel:
- remova o excesso (sem “ensopar” a caixa)
- redobre barreiras anti-formiga
6) Leve o material de batume/cerume (cheiro de “casa” ajuda)
Uma parte do sucesso é o cheiro. Colocar na caixa:
- pedacinhos de cerume/batume do ninho antigo
ajuda as abelhas a reconhecerem o ambiente e retomarem a construção.
7) Garanta que as abelhas “entrem” na nova caixa (não deixe um monte do lado de fora)
Após posicionar cria e potes:
- aproxime as partes da isca para que as abelhas migrem
- use um “funil” improvisado com papel/cartolina para conduzir
- evite soprar (sopro é quente e seco, estressa e pode bagunçar)
8) Feche a caixa e deixe uma entrada pequena e defensável
Jataí é pequena e pode sofrer pilhagem de outros insetos. Uma entrada menor facilita defesa.
Ideal: entrada alinhada, sem frestas.
9) Pós-transferência imediata: 24–72 horas críticas
Nas primeiras 72h, foque em:
- verificar formigas
- verificar se há atividade de entrada/saída
- evitar abrir a caixa “por curiosidade”
Se estiver tudo ok, espere pelo menos alguns dias antes de nova inspeção.
Cuidados pós-transferência (para não perder o enxame depois de “dar certo”)
Proteção anti-formigas: obrigatório
Formiga é uma das maiores causas de perda, especialmente quando há mel derramado.
Use:
- suportes com barreira física
- graxa/óleo em “copinhos” nas pernas do suporte
- limpeza ao redor
Alimentação: quando usar (e quando NÃO usar)
Você pode considerar alimentação quando:
- enxame ficou fraco
- clima ruim prolongado
- pouca reserva de alimento
Mas evite exagero porque:
- pode fermentar
- pode dar mofo
- pode atrair pragas
Há materiais técnicos que descrevem formulações e cuidados com alimentação energética/proteica em meliponicultura.
Ventilação e umidade
Caixa abafada dá fungo/mofo. Caixa exposta ao vento frio prejudica cria.
Procure equilíbrio: local protegido e sombreado, mas sem “estufa”.
Legalidade e transporte (atenção!)
Se a transferência envolve transportar colônias (mesmo dentro da cidade), verifique regras locais. Existem normas sobre:
- transporte dentro da região de ocorrência natural
- necessidade de autorizações/documentos em alguns casos
- cadastros/ato autorizativo do órgão ambiental competente
Fontes institucionais e normativas apontam essas exigências.
Evitar erros comuns
1) Fazer em dia frio/chuvoso
Resultado: cria esfria, abelhas não retomam construção, colônia trava.
2) Derramar mel dentro da caixa
Resultado: formigas, sujeira, estresse, ataque.
3) “Remexer demais” procurando a rainha
Resultado: quebra de discos, esmagamento e perda de organização.
4) Deixar frestas
Resultado: invasores, formigas, correntes de ar, deriva.
5) Trocar de local sem reorientação
Resultado: campeiras se perdem e a caixa enfraquece.
Mini guia: transferência em garrafa PET
Se o enxame está em PET, o desafio é abrir sem “derreter” o ninho.
Passos extras:
- corte a PET com tesoura/estilete bem devagar, sempre observando onde está a cria
- mantenha o conjunto apoiado (para não desmoronar)
- transfira a cria primeiro, depois pólen, depois mel
- qualquer mel derramado: limpe e proteja contra formiga imediatamente
Perguntas frequentes (FAQ)
“Preciso achar a rainha para transferir?”
Não é obrigatório, mas é crucial transferir a área de cria com o máximo de integridade, porque a rainha normalmente está associada à região de cria. Ficar caçando rainha pode causar mais dano do que ajuda.
“Quanto tempo até a jataí ‘pegar’ na caixa nova?”
Se a transferência foi limpa, em poucos dias você já vê atividade consistente na entrada e reorganização interna. O crescimento “visível” leva semanas, dependendo de florada e clima.
“Posso transferir e já colocar melgueira?”
Se sua caixa é modular, a melgueira geralmente entra quando o ninho está forte e organizado. Em enxame recém-transferido, o foco é estabilizar.
Checklist final de sucesso (sinais de que deu certo)
✅ entrada ativa com fluxo regular
✅ abelhas trazendo pólen
✅ construção interna retomando (batume/organização)
✅ ausência de formigas e invasores
✅ cheiro saudável (resinoso, não azedo)
Abel Melquiades é o criador do **Meliponicultura do Zero**, um entusiasta e praticante da criação de abelhas sem ferrão que acredita que o conhecimento só faz sentido quando é compartilhado. Sua trajetória na meliponicultura começou de forma simples, aprendendo na prática, observando as colônias, respeitando os ciclos naturais e entendendo que cada espécie tem seu próprio ritmo. Com o tempo, essa vivência se transformou em experiência sólida, unindo estudo, testes reais e muito cuidado com o bem-estar das abelhas. O blog nasceu do desejo de orientar iniciantes com uma linguagem clara e acessível, mostrando que é possível começar do zero, com responsabilidade, consciência ambiental e paixão pela natureza.








